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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Tecnologia para os pequenos: Vamos pensar sobre isto?

Elas pedem, choram, imploram, subornam. 
Querem tudo o que há de mais novo na tecnologia, de preferência antes que seus amigos tenham, ou ao mesmo tempo que eles. 
Os pais devem ceder? 
A resposta é: não antes de pensar sobre o assunto
Darei-lhes o meu ponto de vista.



Atualmente, por um avanço tecnológico, ao baixo custo e à acessibilidade incentivada e de certa maneira positiva, os celulares, tablets, notebooks, iphones, e etc. estão à mão de quem os desejar, que desembolsando valores muitas vezes razoáveis, facilmente os adquirem.

Sem dúvida, trás inúmeros benefícios para aquela grande parcela de nossa população, que inevitavelmente possui a vida corrida e seus dias repletos de compromissos. Trás a comunicação facilitada, a praticidade tão valiosa, o melhor aproveitamento do tempo, dentre outros.

A questão é que estes mesmos equipamentos tão úteis na vida adulta, estão também nas mãos dos pequenos.
Hoje é comum ver crianças de seis anos de idade pedindo tablets de Natal. 
Supreende-se?
Surpreende-me mais ainda os pais, que desembolsam setecentos reais para fazer a felicidade da criança. Dizem que seus filhos querem ''jogar'', se divertir. 

E desde quando alguém precisa de aplicativos no tablet para se divertir? Com tantas brincadeiras bacanas por aí, com tanta imaginação que existe naturalmente na mente das crianças! Quanta criatividade e energia desperdiçada...
Sei que é parte do senso comum, sei que é moda adquirir certos equipamentos e desfilá-los durante o intervalo da escola, mas o preocupante é que as crianças de hoje em dia precisam ser críticas, e não render-se aos modismos de sua faixa etária ou classe social. E isto parte primeiramente dos pais.
Estes devem incentivar seus filhos a utilizarem o corpo como expressão da alma, como diversão. Os pais devem jogar bola com seus filhos, as mães devem brincar de boneca, de amarelinha, e do que mais houver vontade!
Ainda mais: devem confeccionar bolas, bonecas e amarelinhas com seus filhos. Utilizem materiais recicláveis: veja uma oportunidade de discutir sobre este assunto, tão importante, de uma forma agradável e prática? (Sem contar que brincar com seus filhos é algo tão valioso, tão prazeroso! Não desperdice esta oportunidade...)

A criança está com o corpo cansado? Precisa repor as energias, mas quer continuar usando a cabeça? Ofereça um livro interessante para que ele leia. Isto também dá prazer, e precisa ser descoberto pelas crianças! PRO POR CIO NA DO às crianças. Pai, mãe, professor, irmão mais velho, tio, tia: esta é sua obrigação.
Ou ainda, assistam a um bom filme. Sugira a visita de amiguinhos, são ótimas companhias, e mais ainda pessoalmente do que virtualmente ou ''smsmente''.
Não que seja totalmente errado fornecer às crianças estes eletrônicos. O problema é que estes encantamentos não passam rapidamente, mas perduram muitas vezes por infâncias inteiras. É preciso equilíbrio.
Permita que seu filho utilize de seus equipamentos. Instale nos seus jogos interessantes, de preferência educativos, que incentivem bons valores e hábitos. E supervisione o tempo em que estará dedicando-se à esta atividade.
Controle-o, de uma maneira amorosa, carinhosa, mas também racional e objetiva. Ajude a formar mentes pensantes, que criam e são úteis para os demais, e não apenas usadas como sustentação à este capitalismo com o qual nos conformamos.

O futuro da humanidade agradece.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nova fase

Hoje informo aos meus queridos leitores que entrarei em uma nova fase de minha vida profissional em 2013.

Até este ano trabalhava na Escola Comunitária de Campinas, como já havia compartilhado com vocês, porém desligo-me neste encerrar de 2012.

Foi uma fase de aprendizado, assim como todas em que passamos na vida, que guardarei com carinho e jamais me esquecerei.

Aos alunos, meu muito obrigada pelos ouvidos e olhares atentos.

Aos colegas de trabalho, digo que as boas recordações permanecerão, assim como o carinho tão grande com aqueles verdadeiros parceiros que se tornaram amigos do coração!

Diante disto, penso em continuar dedicando-me àquilo que mais amo fazer, que é ensinar e fazer diferença aos que necessitam, trilhando o caminho da felicidade...



Quanto às aulas particulares, outros horários mais estão disponíveis para 2013. 
Entrem em contato!





“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” 
1 Coríntios 2.9

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Para refletir: Receita para arrancar poemas presos - Viviane Mosé




A seguir, trago um poema de autoria de Viviane Mosé. Ela é psicóloga e psicanalista, e entre os anos de 2005 e 2006, apresentou no programa Fantástico um quadro sobre filosofia no cotidiano, onde seu trabalho ganhou notoriedade.
Tem também um site muito legal, para quem gosta de poemas de qualidade, escritos por pessoas com sentimentos a flor da pele, e sem medo de expressá-lo: www.vivianemose.com.br.

Foi-me apresentado este poema na Faculdade de Educação. Fez-me pensar sobre a utilidade de nossa boca e de nossos corações: falar, sentir, falar o que sente, simplesmente... O receio, o medo, a rotina, o respeito (ou a falta de respeito consigo mesmo) faz com que muitas vezes nos calemos diante daquilo que pensamos, o que não é nada bom.

Nós, que trabalhamos com Educação, lidamos com pessoas o tempo todo. E, sabemos, cada pessoa é diferente, e a consequência de relações entre pessoas diferentes são conflituosas, inevitavelmente. 

Diante disto, podemos e devemos nos expressar, deixar fluir aquilo que passa em nossas cabeças, sem medo de que vai magoar alguém, ou de que pode estar equivocado. Critique, sem medo, sua contribuição pode ser muito grande para quem o ouve. 

Desabafe sobre seu cotidiano, sobre suas dificuldades, compartilhe emoções, descarregue. E perceber que foi equivocado nas afirmações que fez, fale ou escreva mais um pouquinho, e concerte aquilo que disse que não faz o menor sentido. Se errar, magoar, não se cale, mas use ainda mais uma palavra: "Perdão!". Somente não se cale, afinal: palavra presa é tumor.


Receita para arrancar poemas presos


A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos.

Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras calcificadas,

Poemas sem vazão.

Mesmo cravos pretos, espinhas e cabelo encravado.

Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema. Mas não.

Pessoas às vezes adoecem da razão

De gostar de palavra presa.

Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.


Lágrima é dor derretida. Dor endurecida é tumor.

Lágrima é alegria derretida. Alegria endurecida é tumor.

Lágrima é raiva derretida. Raiva endurecida é tumor.

Lágrima é pessoa derretida. Pessoa endurecida é tumor.

Tempo endurecido é tumor. Tempo derretido é poema.

Mosé, Viviane. Pensamento Chão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008






quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Contribuições da Educação Física

A Educação Física é disciplina componente obrigatória da Educação Básica, estando presente, muitas vezes, desde a Educação Infantil.

Porém, sua contribuição e importância no contexto escolar é um assunto que divide opiniões.
Vamos conversar sobre isso?







Ama-se ou odeia-se.


Em geral, os alunos que amam são:
- a maioria dos meninos, que trazem uma ideia associativa entre masculinidade e futebol...
- os praticantes de esporte...
- aqueles que se destacam positivamente da turma por suas habilidades com a bola... 

Os que odeiam são:
- a maioria das meninas, possuidoras da ideia do esporte como totalmente masculino...
- os mais gordinhos, que não movimentam-se com agilidade...
- os magrinhos, fracos e frágeis demais para encarar os inevitáveis "trombões" contra os colegas, e tombos...
- os baixinhos, que não chegam nem perto da rede de vôlei ou da cesta de basquete...

O que é inevitável é que a Educação Física trás alguma contribuição para os alunos, professores, e interfere na ordem da escola.

Muitos dizem que acarreta uma "desordem".

Muitos professores de classe preferem que seus alunos frequentem a aula de Educação Física nas vésperas do horário de saída, pois se voltarem para a aula o rendimento será diminuído pela euforia. Ou então, ministram as aulas mais complexas (matemática, português), antes da Educação Física, pois acham que posteriormente a ela não seria possível.

Os alunos consideram a aula de Educação Física livre, momento de diversão, extensão do intervalo.
Realmente nestas aulas, cabem atividades mais divertidas. A euforia muitas vezes toma conta dos alunos e até dos professores. Há ansiedade pela vitória do desafio, e há felicidade quando isso ocorre. O trabalho em equipe trás conflitos e resoluções de conflitos.

E podemos/devemos, nós, professores, aprender algo com a Educação Física.


Um bom professor de Educação Física (aquele que tem planejamento de aulas, desenvolve procedimentos e objetivos pedagógicos), trabalha não somente os esportes mais comuns (futebol, volei, basquete, handbol), mas também jogos cooperativos, atividades corporais individuais e em equipe, condicionamento físico e ginástica geral. O lúdico muitas vezes é presente neste contexto, o que torna a aula muito mais prazerosa e divertida. Desta forma, consegue-se o aceitamento e participação, se não total, da grandíssima maioria da turma.

Nessas aulas, muitas vezes ocorre que quem destaca-se positivamente é justamente aquele que destaca-se negativamente no rendimento escolar (sala de aula, notas) e na questão da disciplina. Esta questão muitas vezes coloca a Educação Física ou Informal ("libertadora") como rival da Educação Formal ("disciplinadora").

A realidade é que devíamos tornar a Educação Formal, Conteudista, de dentro da sala de aula, um pouco mais próxima da Educação Física.



Mas em quais aspectos?

As atividades lúdicas, mesmo que não necessariamente presentes em todas as aulas de Educação Física, apresenta-se em muitas delas. O mesmo pode ser feito em aulas de conteúdos mais complexos. 










Até mesmo a disposição das carteiras e dos alunos dentro da sala de aula não é necessária para que se aprenda conteúdos. O uso da sala de aula é totalmente discutível quanto à sua necessidade em todos os momentos do ensino, já que muitas aulas podem ser feitas no espaço externo da escola, com todos os alunos sentados no gramado do campo de futebol, ou assistindo a uma aula no pátio da escola em um dia de calor.




O que me parece bem importante na Educação Física, é a não hierarquização dos personagens. 
Em uma equipe, todos estão no mesmo patamar de importância, de visibilidade, e o professor pode, inclusive, tornar-se parte de uma das equipes, ou da equipe total.

A questão dos desafios propostos pela Educação Física, os obstáculos físicos, também podem ser adaptados no ensino de Português, Matemática, Ciências, História, Geografia, Inglês, enfim. 
Dispor os alunos em equipes de trabalho para realizarem em conjunto uma atividade, para que adquiram um conhecimento, gera uma alegria importantíssima para a motivação do aluno. Alegria muitas vezes presente quando faz-se um gol no futebol, ou uma cesta no basquete.
Os alunos podem sentir euforia, ansiedade, conversar com os colegas, aprender com a equipe, e vibrar com o aprendizado.

Logicamente, em toda proposta de atividade, mesmo que lúdica, divertida ou até "livre", deve obrigatoriamente, ter uma finalidade, um objetivo pedagógico, mas nós, professores e futuros professores, temos muito o que aprender com os bons profissionais de Educação Física.

Devemos aceitar a "desordem", ou a "ordem peculiar" que a Educação Física trás para a escola.

É hora de mudar os conceitos, melhorar o ensino, e aumentar o estímulo de nossos alunos!


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Me ajuda a olhar

Tudo o que somos é resultado das influências que absorvemos: do meio em que vivemos, das pessoas com quem convivemos, dos ambientes em que frequentamos... 

Além de sermos influenciados/modificados, também influenciamos/modificamos aos outros. 

Essa troca é totalmente inevitável, e pode ser benéfica ou maléfica, mas jamais saímos neutros ou ilesos enquanto nos relacionamos com o próximo. 

Nem a nossa visão é totalmente nossa, nem o nosso pensamento, nossas ideias... Tudo o que se é, se enxerga, se pensa, é resultado daquilo que se ouve, ou até do que se pensa que acham sobre aquilo a que se referimos.

Que possamos exercer boas influências na vida de outros. Que ajudemos a olhar melhor e ver nas coisas mais belas do mundo, belezas maiores ainda!



“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!”

“O livro dos abraços” – Eduardo Galeano (Porto Alegre: L & PM, 2005, p.15)

História da Educação no Brasil


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ser professor - Santuza Abras (2000)

Ser professor é professar a fé e a certeza de que tudo terá valido a pena se o aluno sentir-se feliz pelo que aprendeu com você e pelo que ele lhe ensinou...
Ser professor é consumir horas e horas pensando em cada detalhe daquela aula que, mesmo ocorrendo todos os dias, a cada dia é única e original...
Ser professor é encontrar pelo corredor com cada aluno, para ele sorrindo, e se possível, chamando-o pelo nome para que ele se sinta especial...
Ser professor é entrar cansado numa sala de aula e, diante da reação da turma, transformar o cansaço numa aventura maravilhosa de ensinar e aprender... 

Ser professor é envolver-se com seus alunos nos mínimos detalhes, vislumbrando quem está mais alegre ou mais triste, quem cortou os cabelos, quem passou a usar óculos, quem está preocupado ou tranquilo demais, dando-lhe a atenção necessária...
Ser professor é importar-se com o outro numa dimensão de quem cultiva uma planta muito rara que necessita de atenção, amor e cuidado.
Ser professor é equilibrar-se entre três turnos de trabalho e tentar manter o humor e a competência para que o último turno não fique prejudicado...
Ser professor é ser um "administrador da curiosidade"de seus alunos, é ser parceiro, é ser um igual na hora de ser igual, e ser um líder na hora de ser líder, é saber achar graça das menores coisas e entender que ensinar e aprender são movimentos de uma mesma canção: a canção da vida...
Ser professor é acompanhar as lutas do seu tempo pelo salário mais digno, por melhores condições de trabalho, por melhores ambientes fisicos, sem misturar e confundir jamais essas lutas com o respeito e com o fazer junto ao aluno.Perder a excelência e o orgulho, jamais!
Ser professor é saber estar disponível aos colegas e ter um espírito de cooperação e de equipe na troca enriquecedora de saberes e sentimentos, sem perder a própria identidade.
Ser professor é ser um escolhido que vai fazer "levedar a massa" para que esta cresça e se avolume em direção a um mundo mais fraterno e mais justo.
Ser professor é ser companheiro do aluno, "comer do mesmo pão", onde o que vale é saciar a fome de ambos, numa dimensão de partilha..
Ser professor é ter a capacidade de "sair de cena, sem sair do espetáculo".
Ser professor é apontar caminhos, mas deixar que o aluno caminhe com seus próprios pés...




Para refletir... Qual a razão da existência humana?


"A menos que se admita a existência de Deus, a questão sobre o propósito de vida não tem sentido"
Bertrand Russel - ateu

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Era uma vez... O menino que concertou o mundo

Em uma simples observação sobre o mundo em que vivemos, é fácil perceber que a calamidade é total. As pessoas não têm amor, não respeitam, não têm compaixão, não tem agem com responsabilidade.
Estive pensando na importância de ser professor. Auxiliamos na formação das pessoas, e temos a belíssima oportunidade de ajudar a torná-las melhor ou pior.









Professor:
 Ajude a consertar o mundo
Ajude a concertar o homem!









Era uma vez…


Um cientista andava muito preocupado com os problemas do Mundo e estava resolvido a encontrar meios de minorá-los. Para isso passava dias inteiros trabalhando no seu escritório longe de distrações para assim poder estar mais concentrado na busca de encontrar as soluções das suas dúvidas. 

Um dia, o seu filho de 7 anos conseguiu entrar no seu escritório e dizia ele, na sua ingenuidade, disposto a ajudá-lo a encontrar as soluções que seu Pai há tanto tempo andava a estudar e não conseguia resolver. 

O pai, por um lado, não pretendia magoar o filho que o queria ajudar. Por outro, tentava lhe criar algo que o entretivesse durante muito tempo, assim poderia ter o sossego suficiente para continuar concentrado nos seus estudos. Lembrou-se de agarrar numa folha que tinha estampado o mapa-mundo e recortando-o criou um quebra-cabeça com os diversos países e deu-lhe pedindo ao filho que juntasse as peças ajudando-o assim a concertar o mundo.

O filho lá ficou entretido a um canto procurando encontrar a solução, enquanto seu Pai continuava preocupado na resolução dos problemas que afetavam o Mundo!

Qual não foi o espanto de seu pai quando o filho pouco tempo depois lhe apareceu com o mapa-mundo todo certinho. Dizia-lhe que já não era preciso o Pai estar preocupado, pois ele tinha já solucionado o problema.

O pai que sabia que o filho não era conhecedor da disposição geográfica dos diversos países no mundo procurou saber como é que ele conseguira resolver o problema tão depressa.
Aí ele explicou-lhe:

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei, mas não consegui. Foi ai que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a concertar o homem, que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e descobri que tinha conseguido concertar o mundo. 
 


Autor desconhecido

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O aluno colou? É hora de discutir avaliação. E regras


Melhor do que redobrar a vigilância é diversificar os meios de checar a aprendizagem. Na hora do flagrante, no entanto, não deve faltar uma boa conversa.

As táticas da cola são criativas: pedacinhos de papel pregados na sola do sapato ou camuflados em canetas, mangas de blusa ou na aba do boné. Fórmulas matemáticas ou textos minúsculos também são escritos pelos adolescentes na parede ou num cantinho da carteira. Você pode até tentar descobrir e reprimir as variadas estratégias - algumas bem antigas, outras até tecnológicas. Mas não é assim que o problema vai se resolver. Se seus alunos estão sempre colando, a primeira providência é entender o porquê. Talvez eles estejam manifestando insegurança, mostrando que não se ajustam a um ensino que privilegia a "decoreba" ou se recusando a quebrar a cabeça para provar que sabem coisas pelas quais não se interessam. De qualquer modo, essa burla às regras mostra que não há compromisso com as normas escolares e que falta eficiência ao sistema de avaliação.
Entre os motivos estão a exigência de decorar fórmulas e a aplicação apenas de provas como forma de verificar o avanço da turma. Testes de múltipla escolha, é bom lembrar, são um convite a esse tipo de fraude. O primeiro antídoto para desestimular a cópia - seja de um papelzinho, do caderno ou do vizinho - está na forma como a escola encara a avaliação.
"Se o professor avalia continuamente, passando tarefas menores, gradativas e seqüenciais, pode verificar com clareza a aprendizagem do aluno em vários momentos e de forma complementar", diz a consultora Jussara Hoffmann, de Porto Alegre. A especialista em avaliação defende em teoria o que já comprovou quando lecionava Língua Portuguesa. "Eu evitava a cola passando tarefas como uma redação, que propiciavam ao aluno responder de forma criativa e singular."
Na Escola Municipal Barbosa Romeo, em Salvador, os professores não reclamam de cola. O motivo é a proposta pedagógica da escola, que prevê como princípios valorizar o conhecimento prévio do aluno e contribuir para que ele se torne ativo e crítico. "Não queremos que os estudantes só ouçam, memorizem e respondam", diz Lane Cristina França Oliveira, professora de História e Geografia. A alternativa a esse sistema é uma avaliação processual, feita no dia-a-dia, sem necessariamente haver a aplicação de testes. Os projetos propostos têm relação com a vida e a cultura dos jovens.
Como evitar as fraudes
No Colégio Monteiro Lobato, de Porto Alegre, não há mais provas. "Nosso objetivo não é testar o aluno, mas realizar um diagnóstico para detectar deficiências no aprendizado e trabalhar esses pontos novamente", explica o professor Luciano Denardin de Oliveira. Por isso, o aluno não vê mais razão para se valer do "jeitinho brasileiro". Lá só se avalia o que já foi bem trabalhado e ninguém precisa colar fórmulas, pois elas ficam no quadro-negro, para todo mundo ver.
A prova com consulta é o melhor antídoto da cola para Gustavo Bernardo, professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. "A avaliação que dá margem à cola precisa ser abolida, proporcionando uma relação de confiança, não só do professor nos alunos, mas dos alunos no próprio saber."
As avaliações que Bernardo propõe têm o objetivo de estimular a capacidade de argumentação. Durante os testes, os alunos podem consultar cadernos, livros e até uns aos outros, desde que não copiem. "E a sala não vira uma bagunça."
Com a boca na botija
Mesmo professores que procuram diversificar os instrumentos de avaliação podem deparar com a cola em classe. Quando isso ocorria, a professora Jussara anotava o nome do estudante e mais tarde o chamava para uma conversa. Hora da bronca? Muito pelo contrário. O momento se transformava em um atendimento especial tanto na parte afetiva quanto cognitiva. Jussara mostrava aos alunos que era mais produtivo consultá-la do que recorrer ao colega ao lado: "Às vezes um grupo de alunos vinha à minha mesa dizendo não saber resolver uma questão. Se fosse preciso, respondia com eles".
Bernardo, por outro lado, não é nada tolerante com a "desonestidade intelectual" da cópia, mesmo sendo adepto de provas com consulta. Atento à facilidade propiciada pela internet, ele localiza informações roubadas de sites e dá zero ao aluno preguiçoso. "Se uma situação clara de desonestidade se apresenta, a repressão deve ser feita com rigor", argumenta. Para ele, os adolescentes precisam de regras e escola frouxa com as próprias leis ensina o aluno a colar. Isso não significa que você deve se transformar em detetive, investigador ou carrasco. Vale dizer que quanto mais autoritário o professor é com a turma, maior a probabilidade de ser vítima da cola.
Fazer vista grossa também não ajuda: se você finge que não vê, o aluno percebe o descaso e perde o respeito. O momento é de discutir com a classe o que a cola significa e debater a transparência nas relações. Bernardo aposta na abertura para o diálogo. Os alunos dele podem, por exemplo, reclamar da nota de uma avaliação, desde que o façam por escrito e assim exerçam a capacidade de argumentação. "Muitas vezes o resultado disso é melhor do que a prova."
No Colégio Estadual Emílio de Menezes, em Curitiba, a hora da prova não é momento de terrorismo, de acordo com o diretor Alcides José de Carvalho. "Damos mais ênfase à questão formativa e valorizamos o progresso do aluno independentemente de ele ser o 'melhor' ou o 'pior', da turma." Por isso, as situações de cola não são freqüentes.
Quando algum problema desse tipo acontece, o aluno é encaminhado para a orientação educacional. "Mostramos que a atitude não era correta", diz o diretor, enfatizando o cuidado de falar da atitude e não da pessoa. Ou seja, não é o aluno que está errado, e sim o que ele fez. "Temos uma grande função social de preparar o aluno para não compactuar com o modelo da chamada 'lei de Gerson', que defende que o importante é levar vantagem em tudo."
Lição para o aluno e o professor
Dentro dos padrões vigentes, a cola é um ato desonesto, assim como a mentira. Mas, para José Sérgio de Carvalho, professor de Filosofia da Educação da Universidade de São Paulo, quebrar regras nem sempre é sinônimo de falta de ética. Consultar anotações na hora da prova, para ele, não é motivo para criar um bicho-de-sete-cabeças. "Não há quem tenha freqüentado uma sala de aula sem colar ou cometer algum outro desvio das normas previstas pela escola."
A cola é uma situação potencialmente educadora, na opinião de Carvalho. "A aplicação de uma regra bem feita educa mais do que uma conversa." Para que isso aconteça, professor e alunos, juntos, devem ter discutido quais são as regras referentes ao momento da realização das provas e as possíveis punições a quem transgredi-las. Assim, o aluno saberá, de antemão, o risco que corre ao descumprir o combinado. Se pego em flagrante, deve ser devidamente punido. "Socrátes já dizia que a pena justa é aquela adequada ao delito e a quem o cometeu", cita Carvalho.
Quando a fraude ocorre e é descoberta é momento também de o professor refletir: o fato mostra que o aluno não está seguro. Mesmo sem ter aprendido, ele finge que sabe para não ser punido. "Se o estudante faz de conta que entendeu, o professor não fica sabendo qual a sua real condição e não pode ajudá-lo", diz Jussara Hoffmann. A cola, ela finaliza, é resultado de uma aprendizagem não significativa. "O aluno não cola aquilo que entende."
Refletir para entender a cola
Se a cola aconteceu em sua classe, talvez esse seja o momento de você pensar sobre o sistema de trabalho e de avaliação que vem adotando. Responder às perguntas abaixo pode ser uma boa forma de buscar soluções de fato eficientes para o problema.
. Pese o que você está exigindo nas provas. Para se sair bem nelas o aluno precisa decorar fórmulas e datas? O conteúdo que está sendo cobrado foi bem compreendido pela turma?
. Pense e discuta com colegas, alunos e direção se o método de avaliação adotado pela escola é justo e eficiente. É apenas a nota da prova que define o nível de aprendizagem da turma ou outras formas de avaliação estão sendo levadas em conta?
. Que importância você dá à nota da prova: é sempre um atestado de ignorância ou de inteligência? Ou você considera a prova uma forma de reorientar as suas ações?
. Que tal olhar sem preconceito para o aluno que foi pego colando e perguntar: por que fez isso? Teve um comportamento desonesto pura e simplesmente ou parecia inseguro e nervoso por não ter estudado direito? Às vezes o pavor é tanto que o aluno esquece tudo que estudou. Será que ele necessita de ajuda ou você precisa repensar a avaliação?
. Quando boa parte da turma tirou nota baixa, você aproveita para fazer uma auto-avaliação ou entende que o problema está na incapacidade de aprendizagem deles?
. Há transparência na sua relação com os alunos, com espaço, por exemplo, para discutir a nota?
. Antigamente, o professor podia sair da sala durante a prova, porque confiava nos alunos. Hoje, raros têm essa atitude. Imagine como seria se você deixasse seus alunos sozinhos durante a prova. Para você, isso mudaria o resultado da avaliação?
. Sua escola cria espaço para a discussão da ética? Sabemos que o comportamento ético chega a ser desestimulado na nossa sociedade competitiva e desigual. E se você transformasse o problema no mote de uma discussão?
. Você sabia que uma prova não prova nada? Uma cola também não. Se o aluno faz um lembrete não indica que ele é mau caráter.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O dizer "não" na educação


É muito comum os pais se queixarem que seus filhos não atendem aos nãos que eles lhes falam, ordenam, pedem, imploram ou mesmo quando  dão a entender...
Esta desobediência ao não dos pais é globalizada. Praticamente todas as crianças do planeta custam a obedecer os seus pais. Há exceções, que são raras, que confirmam a regra de que os filhos hoje estão desobedientes aos seus pais.
É bastante comum eu ouvir este lamento de mães dito com um grande desânimo: Meu filho não me obedece, grita comigo, faz só o que quer, me agride, me ofende... Então eu pergunto: Quantos anos ele tem?  Elas respondem: 2 anos!
Como pode uma criança de dois anos de idade tumultuar tanto a vida da sua mãe?
Digo com bastante convicção que é devido ao que o filho recebeu, como educação ou não, do que lhe aconteceu desde que nasceu. Raríssimos são os casos em que as crianças nascem desobedientes, como doenças psiquiátricas e graves transtornos psicológicos e de caráter. A maioria nasce absolutamente normal e vai se tornando inadequada ou deseducada aos poucos.
Um nenê que durma no colo para depois ser colocado no bercinho já começa um costume errado, pois lugar de dormir passa ser o colo e não o berço. Se, cada vez que acorda durante a noite, ele é pego no colo ele aprende que berço não é lugar para ele ficar, e passa a reivindicar a ficar no colo, onde irá adormecer. O nenê começa a formar a imagem de que só deve ir ao berço quando já estiver dormindo. Assim se ele for colocado no berço ainda acordado, ele se recusará a ficar no berço e criará mil desculpas próprias da idade para não ficar no berço. Sem dúvida é muito gostoso dormir no calor, no balanço e no afeto de um colo do que no bercinho. Não é natural no ser humano acordar em um lugar que ele não deitou.  Enquanto ele nada sabe, ele dorme em qualquer lugar, portanto ele após arrotar o que mamou deve ser colocado de lado no berço para dormir, por mais que os adultos queiram lhe dar colo. O nenê chorar no berço, gritar, dizer palavras incompreensíveis etc é uma defesa natural por preferir fazer o que aprendeu, dormir no colo. Ele já sabe que está lutando por um direito que ganhou dos pais que queriam muito mais agradá-lo do que não o educar. O nenê não está desrespeitando ninguém. São os adultos à sua volta que não souberam educá-lo a dormir sozinho no berço. Quem aprende dormir no colo não quer saber se naquela noite os pais não têm como dar-lhe colo. Ele luta para dormir no que já se acostumou: o colo.
Um ponto muito importante que todos os humanos deveriam saber é: “Ninguém sente falta do que não conhece, mas arca com suas consequências”.
Todos sabem que lugar do bebê dormir é no berço e não no colo, mas como a maioria não sabe que o local do bebê adormecer também deve ser no berço, arcam com as conseqüências de um bebê que acaba atrapalhando o sono dos pais e muitas vezes até separando os cônjuges. Amor é muito bom, mas não resolve este problema das noites mal dormidas de todos na família. Não é errando que se aprende, mas sim corrigindo o erro.
Assim também muitos nãos dos pais não são obedecidos principalmente pelos filhos:
  • que percebem que o não pode ser transformado em sim;
  • que nada lhe acontece se não obedecer ao não e continuar fazendo o que queria;
  • que os pais num dia dizem sim e noutro, não;
  • que basta questioná-los que eles deixam quando os pais não têm respostas;
  • que a boca diz não, mas os olhos dizem sim;
  • que a palavra diz não, mas todo o comportamento diz sim;
  • que o agora não se transforma em daqui a pouco pode.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/colunas/icami_tiba/2011/08/09/o-dizer-nao-na-educacao.jhtm

Papel da escola é ensinar a aprender e não só transmitir conteúdo


Criar desde cedo uma boa relação com o estudo ajuda no desenvolvimento.
Excesso de livros didáticos redundantes gera custos, mas não dá resultado.

Acompanhando uma garotinha de segundo ano em seu período de avaliações, ajudando-a a se preparar para elas, ao procurar a matéria a ser revisada, algumas coisas causaram estranhamento.
Por exemplo, em época de alfabetização, na disciplina de português, ela tinha três livros e um caderno para estudar. Não sei bem o porquê. Um livro repetia os itens do outro.
Outra questão foi como eram indicados para a criança os conteúdos a serem revisados: indicava-se o assunto, mas não era mencionado onde encontrá-los. O que significou uma perda significativa de tempo para achar o que realmente era necessário.
Ora, a escola é um lugar para se aprender conteúdos de diferentes áreas do conhecimento, mas também um lugar onde se prevê o desenvolvimento intelectual do aluno e de seu pensamento. E isso envolve organização – ser capaz de organizar as idéias é um aspecto importante no desenvolvimento de uma pessoa.
Queixa comum dos professores em relação aos estudantes é a desorganização deles, inclusive de suas idéias, e de não saberem estudar.
Para que isso ocorra, um caminho interessante é trabalhar com a ação concreta, para que ela depois seja incorporada. Isso deve ser propiciado pela escola. Inclusive, esse deveria ser um aspecto contemplado em seus anos iniciais. Momento em que eles ainda estão aprendendo a se relacionar com o conhecimento. O início de tudo marca o tom de como as coisas serão pela vida.
Ao não dizer quais páginas estudar, a escola está pondo por terra a importância de se utilizar o número das páginas para se encontrar algo numa publicação.
Será o modernismo do processo educacional? Nem tudo que é moderno é bom. Até porque a escola cobra um conhecimento redondinho dos alunos. Deve propiciar isso a eles.
O que deixa claro é que a escola ainda se preocupa em passar os conteúdos. Hoje em dia, com tantas informações (a internet que o diga), não precisa tanto desespero para isso. O ideal seria trabalhar a relação dos alunos com o aprender, ajudando-o a se organizar e ensinando-o a estudar. Usando dos recursos velhos conhecidos, como encontrar o conteúdo através da utilização do número das páginas. Não é assim quando vamos ler um capítulo de um livro? Rapidamente o encontramos utilizando o número das páginas.
Quanto à quantia de material didático para uma mesma matéria, não tem muito sentido. Claro que a disciplina de língua portuguesa tem vários aspectos a serem trabalhados – gramática, leitura, interpretação de texto, escrita... Porém, isso gera um custo alto para as famílias, além de trazer confusão na hora de estudar. O ideal é escolher um livro que contemple os diferentes itens. E geralmente os bons livros didáticos o fazem.
Nem sempre um monte de livros quer dizer que o aluno aprendeu muito. O que nós precisamos hoje em dia é de qualidade. É obrigação da escola propiciar a qualidade de como o aluno pode organizar seu pensamento. Se não, ela não passará de mera transmissora de conteúdos. Se é que algum dia saiu desse lugar.



(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)
Fonte: http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2011/10/papel-da-escola-e-ensinar-aprender-e-nao-apenas-transmitir-conteudo.html

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A turma do "Eu me acho"


A turma do "Eu me acho"

A educação moderna exagerou no culto à autoestima – e produziu adultos 
que se comportam como crianças. Como enfrentar esse problema

CAMILA GUIMARÃES E LUIZA KARAM, COM ISABELLA AYUB

Os alunos do 3º ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos, numa tarde ensolarada no mês passado, para o momento mais especial de sua vida escolar, a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na plateia, todos se preparavam para ouvir o discurso do professor de inglês David McCullough Jr. Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais. Elas foram repetidas nove vezes em 13 minutos. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no começo. “Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (...) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são.” 

O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua caixa postal. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, revistas, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV. Teve de explicar que não menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades”, disse ele a ÉPOCA. “Mas, para se dar bem daqui para a frente, eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro.”
A reação ao discurso do professor McCullough pode parecer apenas mais um desses fenômenos de histeria americanos. Mas a verdade é que ele tocou numa questão que incomoda pais, educadores e empresas no mundo inteiro – a existência de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo de seus pais e professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma autoestima tão exagerada que não conseguem lidar com as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se eles fossem da realeza”, afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009, sem tradução para o português. “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo.”

Em português, inglês ou chinês, esses filhos incensados desde o berço formam a turma do “eu me acho”. Porque se acham mesmo. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja do frescor de seu talento). Eles se acham merecedores de constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu valor). Você conhece alguém assim em seu trabalho ou em sua turma de amigos? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, é ligada em tecnologia e competente em seu uso. São bons, é fato. Mas se acham mais do que ótimos.
“Esse grupo tem dificuldade em aceitar críticas e tarefas que não consideram a sua altura”, diz Daniela do Lago, especialista em comportamento no trabalho e professora da Fundação Getulio Vargas. Daniela conta que, recentemente, uma das empresas para a qual dá consultoria selecionava candidatos ao cargo de supervisor. A gerente do departamento de marketing fazia as entrevistas, e uma de suas estagiárias a procurou, se candidatando ao cargo. A gerente disse que gostara da iniciativa ousada, mas respondeu que a moça ainda não estava madura nem preparada para assumir a função. Ela fora contratada havia apenas dois meses. Mesmo assim não gostou da resposta. “Achou que sofria perseguição”, diz Daniela. Dentro das empresas brasileiras, esse tipo de comportamento já foi identificado como a principal causa da volatilidade da mão de obra jovem. A Page Personnel, uma das maiores empresas de recrutamento de jovens em início de carreira, fez um levantamento entre brasileiros de até 30 anos sobre suas expectativas de promoção. Quase 80% responderam que pretendem mudar de empresa se não forem promovidos.

A expectativa exagerada dos jovens foi detectada no livro Generation me (Geração eu), escrito em 2006 por Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego. No trabalho seguinte, em parceria com Campbell, ela vasculhou os arquivos de uma pesquisa anual feita desde os anos 1960 sobre o perfil dos calouros nas universidades. Descobriu que os alunos dos anos 2000 tinham traços narcisistas muito mais acentuados que os jovens das três décadas anteriores. Em 2006, dois terços deles pontuaram acima da média obtida entre 1979 e 1985. Um aumento de 30%. “O narcisismo pode levar ao excesso de confiança e a uma sensação fantasiosa sobre seus próprios direitos”, diz Campbell.

Os maiores especialistas no assunto concordam que a educação que esses jovens receberam na infância é responsável por seu ego inflado e hipersensível. E eles sabem disso. Uma pesquisa da revista Time e da rede de TV CNN mostrou que dois terços dos pais americanos acreditam que mimaram demais sua prole. Sally Koslow, uma jornalista aposentada, chegou a essa conclusão depois que seu filho, que passara quatro anos estudando fora de casa e outros dois procurando emprego, voltou a morar com ela. “Fizemos um superinvestimento em sua educação e acompanhamos cada passo para garantir que ele tivesse sua independência”, diz ela. “Ao ver meu filho de quase 30 anos andando de cueca pela sala, percebi que deveria tê-lo deixado se virar sozinho.”
A mensagem
Para os mimados
É possível combater na vida adulta os efeitos de uma criação permissiva demais
Para os pais
Inflar a autoestima das crianças não é o melhor caminho para o sucesso delas na vida adulta
Que criação é essa que, mesmo com a garantia da melhor educação e sem falta de atenção dos pais, produz legiões de narcisistas com dificuldade de adaptação? Os estilos de criação modernos têm em comum duas características. A primeira é o esforço incansável dos pais para garantir o sucesso futuro de sua prole – e esse sucesso depende, mais do que nunca, de entrar numa boa universidade e seguir uma carreira sólida. Nos Estados Unidos, a tentativa de empacotar as crianças para esse modelo de vida começa desde cedo. Escolas infantis selecionam bebês de 2 anos por meio de testes. Isso acontece no Brasil também. No colégio paulista Vértice, um dos mais bem classificados no ranking do Enem, há fila para uma vaga no jardim da infância.

O segundo pilar da criação moderna está na forma que os pais encontraram para estimular seus filhos e mantê-los no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima. É uma atitude baseada no Movimento da Autoestima, criado a partir das ideias do psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden, hoje com 82 anos. Em 1969, ele lançou um livro pregando que a autoestima é uma necessidade humana. Não atendida, ela poderia levar a depressão, ansiedade e dificuldades de relacionamento. Para Branden, a chave para o sucesso tanto nas relações pessoais quanto profissionais é nutrir as pessoas com o máximo possível de autoestima desde crianças. Tal tarefa, diz ele, cabe sobretudo a pais e professores. Foi uma mudança radical na maneira de olhar para a questão. Até a década de 1970, os pais não se preocupavam em estimular a autoestima das crianças. Temiam mimá-las. O movimento de Branden chegou ao auge nos Estados Unidos em 1986, quando o então governador da Califórnia, George Deukmejian, assinou uma lei criando um grupo de estudos de autoestima. Os pesquisadores deveriam descobrir como as escolas e as famílias poderiam estimulá-la.

Para piorar, um grupo de psicólogos afirma agora que a premissa fundamental do movimento da autoestima estava errada. “Há poucas e fracas evidências científicas que mostram que alta autoestima leva ao sucesso escolar ou profissional”, diz Roy Baumeister, professor de psicologia da Universidade Estadual da Flórida. Ele é responsável pela mais extensa e detalhada revisão dos estudos feitos sobre o tema desde a década de 1970. Descobriu que a autoestima alta é provocada pelo sucesso – não é causa dele. Primeiro vêm a nota boa e a promoção no trabalho, depois a sensação de se sentir bem – não o contrário. “Na verdade, a autoestima elevada pode ser muitas vezes contraproducente. Ela produz indivíduos que exageram seus feitos e realizações.” Outra de suas conclusões é que o elogio mal aplicado pode ser negativo. “Quando os elogios aos estudantes são gratuitos, tiram o estímulo para que os alunos trabalhem duro”, afirma. 
Os pais reuniram esses dois elementos – o desejo de ver o filho se dar bem na vida e a ideia de que é preciso estimular a autoestima – e fizeram uma tremenda confusão. Na ânsia de criar adultos competentes e livres de traumas, passaram a evitar ao máximo criticá-los. O elogio virou obrigação e fonte de trapalhadas. Para fazer com que as crianças se sintam bem com elas mesmas, muitos pais elogiam seus filhos até quando não é necessário. O resultado é que eles começam a acreditar que são bons em tudo e criam uma imagem triunfante e distorcida de si mesmos. Como distinguir o elogio bom do ruim? O exemplo mais comum de elogio errado, dizem os psicólogos, é aquele que premia tarefas banais. Se a criança sabe amarrar o tênis, não é necessário parabenizá-la por isso todo dia. Se o adolescente sabe que é sua obrigação diária ajudar a tirar a mesa, diga apenas obrigado. Não é preciso exaltar sua habilidade em dobrar a toalha. Os elogios mais inadequados são feitos quando não há nada a elogiar. Se o time de futebol do filho perde de goleada – e o desempenho dele ajudou na derrota –, não adianta dizer: “Você jogou bem, o que atrapalhou foi o gramado ruim”. Isso não é elogio. É mentira.
 
Narcisistas sem rumo
Com uma visão distorcida de suas qualidades, com dificuldade para lidar com as críticas e aprender com seus erros, muito jovens narcisistas não conseguem se acertar em nenhuma carreira. Outros vão parar na terapia. Esses jovens acham que podem muito. Quando chegam à vida adulta, descobrem que simplesmente não dão conta da própria vida. Ou sentem uma insatisfação constante por achar que não há mais nada a conquistar. Eles são estatisticamente mais propensos a desenvolver pânico e depressão. Também são menos produtivos socialmente.

 Em terapia desde os 15 anos, Priscila Pazzetto tem hoje 25 e não hesita em dizer que foi e ainda é mimada. “Uma vez pedi para minha mãe me pôr de castigo, porque não sabia como era”, afirma. Os pais se referem a ela como “nossa taça de champanhe”, a caçula de três irmãos que veio brindar a felicidade da família num momento em que seu pai lutava contra um câncer. “Nasci no Ano-Novo. Quando assistia às chuvas de fogos na TV, meus pais diziam que aquilo tudo era para mim, para comemorar meu aniversário”, diz Priscila.
Quando cresceu, nada disso a ajudou a terminar o que começava. Tentou inglês, teatro, tênis, caratê, futebol, jiu-jítsu e natação. Interrompeu até o hipismo, pelo qual era apaixonada. Estudou em sete colégios particulares de São Paulo e, com frequência, seu pai precisou interferir para que ela passasse de ano. Passou em três vestibulares, mas não concluiu nenhum curso superior. “Simplesmente não me sinto motivada a ir até o fim”, afirma. Ainda morando com os pais, Priscila acaba de fazer um curso técnico de maquiagem e diz que arrumou emprego na butique de uma amiga. Tenta de novo começar.

 Claro, nem todos da turma do “eu me acho” estão sem rumo. Muitos são empreendedores bem-sucedidos, e seu estilo de vida – independente, inquieto, individualista – tem defensores ferozes. Um deles é a escritora americana Penelope Trunk, uma ex-jogadora de vôlei de praia que se tornou a maior propagandista da geração nascida na década de 1980, chamada nos Estados Unidos de geração Y. “Qual o problema em se sentir o máximo?”, diz ela. “Se você se sente incrível, tem mais chances de fazer coisas incríveis, sem ligar para pessoas que recomendam o contrário.” Quando os integrantes da turma do “eu me acho” conseguem superar o fato de não ser perfeitos e se põem a usar com dedicação a excelente bagagem técnica e cultural que receberam, coisas muito boas podem acontecer.
Aos 20 anos, no início de sua carreira, o paulistano Roberto Meirelles, hoje com 26, conseguiu seu primeiro estágio. Seu sonho era se tornar diretor de arte. Morava com a mãe numa casa confortável, tinha seu próprio carro e não sofria nenhuma pressão para sair de casa. Resolveu trabalhar até de graça. Aos 24 anos, foi promovido e assumiu o cargo que almejava. Chamou os amigos e deu uma festa. Seus pais ficaram orgulhosos. Sete meses depois, assinou sua carta de demissão. Não era aquilo que ele realmente queria. Seus antigos colegas de trabalho riram ao ouvir que ele estava deixando a agência para “fazer algo em que acreditava”. Seus pais não compreenderam o que ele queria dizer com “curadoria de conhecimento”, expressão que usou para definir seu empreendimento. Apesar da descrença geral, ele foi em frente e criou com dois amigos uma empresa que seleciona informação e organiza estudos sobre temas diversos, para vendê-los no mercado corporativo e para pessoas físicas. Com dois anos recém-completados, a Inesplorato conseguiu faturamento de R$ 1,4 milhão. “Minha maior conquista foi conseguir ganhar dinheiro com uma ideia própria. Eu amo isso”, diz Meirelles.
Quanto mais autoestima melhor
Uma das conclusões a que o psicólogo Baumeister chegou na revisão dos estudos sobre autoestima pode servir de esperança para os jovens da geração “eu me acho” que ainda estão perdidos: a autoestima produz indivíduos capazes de fazer grandes reviravoltas em sua vida. Justamente por ter um ego exaltado, eles têm a ferramenta para ser mais persistentes depois de um fracasso. Em seu último livro, Força de vontade (Editora Lafonte), Baumeister dá outra dica de como conduzir a vida: ter controle dos próprios impulsos é mais importante que a autoestima como fator de sucesso. “A força de vontade é um dos ingredientes que nos ajudam a ter autocontrole. É a energia que usamos para mudar a nós mesmos, o nosso comportamento, e tomar decisões”, disse ele a ÉPOCA no ano passado.
Também há esperança para os pais que se pegam diariamente na dúvida sobre como lidar com suas crianças. Muitos deles conseguem criar seus filhos equilibrando limite e afeto e ensinando a lidar com frustrações sem ferir a autoestima (leia os quadros acima). Na casa de Maria Soledad Más, de 49 anos, e Helder, de 35, pais de Natália, de 9 anos, e Mariana, de 11, os direitos estão ligados ao merecimento e a responsabilidades. “As meninas aprenderam a lidar com erros e frustrações desse jeito”, diz Helder. Para Mariana, uma frustração é não ter celular, já que a maioria das amiguinhas tem seu próprio aparelho. “Explico a ela que ter celular envolve responsabilidade e que ela é muito nova”, diz a mãe. “Claro que esse assunto sempre volta à tona, mas não incomoda. Ela acata bem nossas decisões.”Uma das conclusões a que o psicólogo Baumeister chegou na revisão dos estudos sobre autoestima pode servir de esperança para os jovens da geração “eu me acho” que ainda estão perdidos: a autoestima produz indivíduos capazes de fazer grandes reviravoltas em sua vida. Justamente por ter um ego exaltado, eles têm a ferramenta para ser mais persistentes depois de um fracasso. Em seu último livro, Força de vontade (Editora Lafonte), Baumeister dá outra dica de como conduzir a vida: ter controle dos próprios impulsos é mais importante que a autoestima como fator de sucesso. “A força de vontade é um dos ingredientes que nos ajudam a ter autocontrole. É a energia que usamos para mudar a nós mesmos, o nosso comportamento, e tomar decisões”, disse ele a ÉPOCA no ano passado.
Os piores resultados vêm da criação de pais negligentes. Eles não são exigentes, não impõem limites e nem estão abertos a ouvir as demandas dos filhos. Segundo pesquisas brasileiras – com amostras pequenas, que não devem ser tomadas como definitivas –, esse é o estilo parental que predomina no país nos últimos anos. Quando se fala em estilo negligente de criação, isso não quer dizer que a criança está abandonada e não receba o suficiente para suprir suas necessidades materiais e de afeto. O problema é mais sutil. Com medo de parecer repressores, esses pais hesitam em impor limites. “É uma interpretação errônea dos modelos educacionais propostos a partir da década de 1970. Eles pregavam que a criança não deveria ser cerceada para que pudesse manifestar todo seu potencial”, diz Claudete Bonatto Reichert, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil. “Provavelmente, a culpa que os pais sentem por trabalhar fora leva a isso.”Esses modelos de criação domésticos são chamados pelos psicólogos de “estilo parental”. Não é uma atitude isolada ou outra. É o clima emocional criado na família graças ao conjunto de ações dos pais para disciplinar e educar os filhos. Eles começaram a ser estudados em 1966 pela psicóloga Diana Baumrind, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley. De acordo com sua observação, ela dividiu os pais em três tipos: os autoritários, os permissivos e aqueles que têm autoridade, os competentes. O melhor modelo detectado por psicólogos, claro, são os pais competentes. Eles são exigentes – sabem exercer o papel de pai ao impor limites e regras que os filhos devem respeitar –, mas, ao mesmo tempo, são flexíveis para escutar as demandas das crianças e ceder, se julgarem necessário. A criança pode questionar por que não pode brincar antes de fazer o dever de casa, e eles podem topar que ela faça como queira, contanto que o dever seja feito em algum momento. Mas jamais admitirão que a criança não cumpra com sua obrigação. Ao dar limites, podem ajudar o filho a aprender a escolher e a administrar seu tempo. Os filhos de pais competentes costumam ser muito responsáveis, seguros e maduros. Têm altos índices de competência psicológica e baixos índices de disfunções sociais e comportamentais .
Se parece difícil implantar em sua casa o modelo dos pais com autoridade, ainda há outra esperança. Nem todos concordam que os pais sejam totalmente responsáveis pela formação da personalidade dos filhos. A psicóloga britânica Judith Harris, de 74 anos, ficou famosa por discordar do tamanho da influência dos pais na criação dos filhos. Para ela, se os filhos lembram em algo os pais, não é graças à educação, mas à genética. “Os pais assumem que ensinaram a seus filhos comportamentos desejáveis. Na verdade, foram seus genes”, afirma. O resto, diz Judith, ficará a cargo dos amigos, a quem as crianças se comparam. É por isso que ela acha inútil tentar dar aos filhos uma criação diferente da turma do “eu me acho”. “Houve uma mudança enorme na cultura”, afirma. “As crianças são vistas como infinitamente preciosas. Recebem elogios demais não só em casa, mas em qualquer lugar aonde vão. O modelo de criação reflete a cultura.”

(Fonte: Época Ideias - 22/07/2012)